Além da Cura: Qualidade de Vida Após o Câncer de Próstata

Dr. Daniel Vargas Pivato de Almeida

1/24/20263 min read

A qualidade de vida após o tratamento do câncer de próstata é hoje uma parte central da conversa entre médicos, pacientes e familiares. Felizmente, a maioria dos homens diagnosticados com câncer de próstata localizado tem altas chances de cura. Isso muda o foco: não se trata apenas de eliminar a doença, mas de como viver bem depois do tratamento, preservando autonomia, bem-estar físico, emocional e sexual.

Os tratamentos mais utilizados para o câncer de próstata localizado, como cirurgia (prostatectomia radical) e radioterapia, são eficazes, mas podem afetar funções importantes, principalmente a função urinária e a função sexual. Esses efeitos variam muito de pessoa para pessoa e dependem de fatores como idade, condições prévias de saúde, técnica utilizada, experiência da equipe e estratégias de reabilitação adotadas desde o início.

A função urinária é uma das maiores preocupações no período após o tratamento, especialmente após a cirurgia. Alguns homens podem apresentar perda involuntária de urina, principalmente nos primeiros meses. Na maioria dos casos, essa condição melhora progressivamente ao longo do tempo. A boa notícia é que existem medidas eficazes de prevenção e recuperação. Exercícios de fortalecimento do assoalho pélvico, conhecidos como exercícios de Kegel, quando iniciados precocemente (muitas vezes ainda antes do tratamento) reduzem o risco e a duração da incontinência urinária. Fisioterapia pélvica especializada, ajustes comportamentais (como controle da ingestão de líquidos e cafeína) e acompanhamento regular fazem parte de uma estratégia moderna de cuidado. Em uma minoria dos casos, tratamentos adicionais podem ser necessários, mas hoje há opções seguras e eficazes.

A função sexual, em especial a ereção, também pode ser impactada. Isso ocorre porque os nervos e vasos sanguíneos responsáveis pela ereção passam muito próximos à próstata. Técnicas cirúrgicas modernas procuram preservar esses nervos e vasos sempre que possível, mas mesmo assim é comum haver algum grau de disfunção erétil temporária após o tratamento. A recuperação pode levar meses ou até mais tempo, e depende tanto da preservação nervosa quanto da saúde vascular prévia do paciente.

Aqui entra um conceito cada vez mais importante: reabilitação sexual precoce. Estratégias como o uso de medicamentos orais, dispositivos a vácuo, injeções intracavernosas em situações selecionadas e orientação especializada ajudam a estimular a oxigenação do tecido peniano e favorecem a recuperação funcional. Além do aspecto físico, o impacto emocional não deve ser subestimado. Ansiedade, insegurança e mudanças na autoestima são comuns, e o diálogo aberto com o parceiro(a) e com a equipe de saúde faz diferença real nos resultados.

Outro ponto essencial é entender que qualidade de vida não se resume apenas à função urinária ou sexual. Fadiga, alterações do sono, mudanças no humor e no nível de atividade física podem ocorrer após o tratamento. Estudos mostram que manter hábitos saudáveis, como prática regular de atividade física, alimentação equilibrada e controle do peso, contribui não só para a saúde geral, mas também para a recuperação funcional e emocional após o câncer de próstata. Exercício físico regular, por exemplo, melhora a disposição, reduz sintomas urinários irritativos e tem impacto positivo na saúde sexual e cardiovascular.

Instituições de referência internacional e nacional enfatizam que o cuidado do homem com câncer de próstata não termina com o fim do tratamento oncológico. O acompanhamento contínuo, com foco em reabilitação, prevenção de efeitos tardios e promoção da saúde, é parte fundamental do sucesso terapêutico. Cada paciente tem seu próprio ritmo de recuperação, e comparações com outras pessoas costumam gerar frustração desnecessária.

Em resumo, viver bem após o tratamento do câncer de próstata localizado é um objetivo realista e alcançável. Informação de qualidade, acompanhamento especializado e participação ativa do paciente nas decisões e nos cuidados fazem toda a diferença. O tratamento cura o câncer; o cuidado contínuo devolve qualidade de vida.